A Cavermatrix XXI
Pílula azul ou pílula vermelha? Todos os dias somos convocados
a essa experiência com Morpheus. O que isso significa? Antes de qualquer outra
linha escrita, faz-se necessário contextualizar essa tal experiência. O ano era
1999. Sim, logo entraríamos no século XXI. Estreava o filme Matrix,
cyberpunk (subgênero da ficção científica), dirigido pelas irmãs Lana e Lilly
Wachowski. Logo alcançou um sucesso estrondoso de crítica e público, sendo
considerado um dos filmes mais influentes e revolucionários da história do
cinema, marcando a cultura pop com seus efeitos visuais inovadores e temas
filosóficos profundos. Então comecemos por aqui, pela filosofia.
Num tempo mais longínquo existiu um filósofo e matemático
chamado Platão de Atenas (348/347 a.C.), do período clássico da Grécia Antiga,
autor de diversos diálogos filosóficos e fundador da Academia em Atenas, a
primeira instituição de educação superior do mundo ocidental. Em um de
seus trabalhos mais conhecidos ele nos apresenta um mito: o Mito da Caverna. E
o que isso teria a ver com o filme Matrix? Tudo, pois existem
comentaristas que afirmam que Matrix é uma releitura do Mito da Caverna
de Platão. O mito é uma alegoria que explora a dualidade entre a ilusão e a
verdade. Imagine prisioneiros que, desde o nascimento, vivem acorrentados em
uma caverna, de costas para a entrada. Tudo o que conseguem ver são sombras
projetadas em uma parede, geradas por uma fogueira e objetos que passam atrás
deles. Para esses homens, aquelas sombras são a única realidade existente.
A trama muda quando um dos prisioneiros é
libertado. Ao sair da caverna, a luz do sol o cega inicialmente, causando dor e
confusão. No entanto, conforme sua visão se ajusta, ele percebe que o mundo lá
fora é vasto, colorido e real, enquanto a caverna era apenas uma cópia
imperfeita e limitada. Ele descobre que o Sol é a fonte de toda a luz e da
vida. Ao retornar para libertar seus companheiros, o ex-prisioneiro é
ridicularizado. Como seus olhos agora estão desacostumados com a escuridão, os
outros acreditam que a jornada o deixou louco ou cego, preferindo continuar na
zona de conforto de suas correntes. No fundo, Platão usa essa história para
descrever o papel da educação e da filosofia: o esforço árduo de abandonar o
“senso comum” (as sombras) para alcançar o conhecimento verdadeiro por meio da
razão (a luz do sol). O prisioneiro liberto representa o filósofo, que tem o
dever ético de tentar despertar a consciência da sociedade, mesmo sofrendo
resistência.
No filme Matrix temos Neo como
personagem principal. De dia ele era Thomas A. Anderson, um programador de
sistemas que trabalhava para uma respeitável empresa de software chamada
MetaCortex. Ele mantinha a aparência de um jovem profissional comum, pagava
seus impostos e ajudava a síndica a levar o lixo. À noite ele era o hacker
conhecido como Neo. Ele operava fora da lei, invadindo sistemas e vendendo
softwares ilegais. Assim como o ex-prisioneiro da caverna, Neo é convocado a
fazer uma escolha entre viver na ignorância confortável ou encarar a verdade
dolorosa. A pílula azul simboliza a permanência na ilusão (conforto), enquanto
a vermelha representa o despertar para a realidade (liberdade), tornando-se um
símbolo filosófico sobre escolhas, controle e a natureza da realidade. Ele
escolhe tomar a pílula vermelha, que é o mesmo que sair da caverna.
O filme vai tomando muitos desenrolares e, assim como o prisioneiro de Platão que é arrastado para fora da caverna, Neo sofre um choque sensorial. Ao tomar a pílula vermelha ele descobre que seu corpo físico vive em um casulo, servindo de bateria para máquinas, enquanto sua mente habita um software. Ele precisa aprender a “ver” sem os olhos e a “sentir” sem os nervos, aceitando que o mundo material que conhecia era apenas uma projeção de sombras. Neo passa por um treinamento onde entende que as leis da Matrix (gravidade, física, limites humanos) são apenas regras de um programa. Ele deixa de ser um “prisioneiro” quando para de tentar lutar contra os agentes e passa a alterar a realidade ao seu redor. No auge dessa fase ele enxerga o código verde fluindo em tudo: ele finalmente vê o “Sol”, a verdade por trás da ilusão. Neo assume a responsabilidade de voltar à “caverna”, a Matrix, para libertar outras mentes. Ele é o filósofo que tenta explicar que as sombras não são reais. Neo deixa de ser um indivíduo comum para se tornar a personificação da liberdade intelectual, provando que o conhecimento da verdade é o único caminho para a emancipação.
Então refaço a pergunta: pílula azul ou
pílula vermelha? Todos os dias somos convocados para essa escolha, mas há quem
não escolha, e hoje muitos nem conseguem ouvir tal convocação. Em tempos de bolhas virtuais, ou não virtuais, onde, como Narcisos, escutamos somente ecos
de nós mesmos, qualquer experiência diferente deixa de ser reconhecida. A
Matrix, ou a caverna, impera firmemente; no entanto, hoje talvez nós,
prisioneiros, estejamos ainda mais confortáveis em habitar a prisão do que nos
anos de 1999 ou de 348/347 a.C. Quem seriam os Neos, ou ex-prisioneiros de
hoje, e quem serão os de amanhã?
– por Natália Amanda
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