Adultização das crianças e infantilização dos adultos: um olhar psicanalítico sobre os desafios atuais.
O paradoxo da nossa época.
Vivemos em um tempo curioso: de um lado, crianças parecem crescer rápido demais, assumindo responsabilidades e comportamentos adultos precocemente. De outro, muitos adultos parecem evitar o peso da maturidade, permanecendo em uma adolescência prolongada. Esse fenômeno pode ser entendido como a adultização das crianças e a infantilização dos adultos.
O que a psicanálise tem a dizer.
Freud descreveu as fases psicosexuais do desenvolvimento — oral, anal, fálica, latência e genital — que marcam etapas fundamentais para a formação do sujeito. Quando o ritmo natural dessas fases é interrompido ou acelerado, surgem fixações e regressões que afetam a vida adulta.
Na sociedade atual, as crianças muitas vezes são retiradas da fase da latência, que deveria ser voltada ao aprendizado, sublimação e socialização, e são inseridas em conteúdos e pressões próprias da fase genital: erotização precoce, cobrança por desempenho, autocontrole e produtividade. É como se a infância se tornasse um estágio descartável diante da exigência por performance.
Adultos que não querem crescer.
Por outro lado, muitos adultos mostram dificuldades em sustentar as responsabilidades da vida adulta. Permanecem presos a buscas típicas de fases anteriores, como a necessidade de gratificação imediata, a busca constante por reconhecimento e a dificuldade em lidar com frustrações. Isso se reflete em fenômenos contemporâneos como burnout, dependência tecnológica, relações frágeis e instabilidade emocional.
Um sintoma cultural.
Esses movimentos não se reduzem a questões individuais. Eles revelam um sintoma da cultura atual. Vivemos em uma sociedade acelerada, marcada pelo consumo e pela busca incessante por resultados, que não respeita o tempo da infância nem tolera o peso da maturidade. Assim, formamos um cenário paradoxal: crianças adultizadas e adultos infantilizados.
O papel da família na adultização e infantilização
A família é o primeiro núcleo de socialização e, portanto, exerce influência decisiva nesse processo. Quando os adultos projetam suas próprias fragilidades nos filhos, seja pela pressa em que amadureçam, seja pela dificuldade em sustentar sua própria maturidade, criam-se distorções no desenvolvimento.
Na adultização das crianças, a família pode reforçar expectativas de desempenho precoce, tratando a criança como pequena adulta: exigindo produtividade, autocontrole emocional e até posturas corporais ou responsabilidades incompatíveis com a idade. Esse deslocamento retira dela o direito ao brincar, ao erro e ao tempo subjetivo da infância.
Na infantilização dos adultos, observa-se muitas vezes uma inversão de papéis. Pais que esperam ser cuidados pelos filhos, que buscam neles a função de apoio emocional, ou que delegam responsabilidades que seriam próprias da vida adulta. Essa dinâmica confunde os lugares simbólicos, fragilizando a função de transmissão geracional que deveria sustentar a criança em seu processo de crescimento.
Em termos psicanalíticos, a família é o espaço em que as fases psicosexuais encontram seus limites e mediações. Quando há falha nessa mediação, os atravessamentos ficam truncados: a criança passa rápido demais pela fase de latência ou o adulto não consegue se estabilizar na genitalidade madura.
Assim, refletir sobre a adultização e a infantilização também implica refletir sobre como a família ocupa o lugar de continente: um espaço de cuidado, limite e transmissão simbólica que permite que cada fase da vida seja vivida em seu tempo.
Como a psicanálise pode ajudar?
A psicanálise não oferece respostas prontas, mas propõe uma via de reflexão. Perguntas como “O que ainda permanece infantil em mim?” e “Quais responsabilidades adultas tenho evitado assumir?” podem abrir caminhos importantes de autoconhecimento. Reconhecer essas distorções pode ajudar a devolver à criança o direito de ser criança e ao adulto a dignidade de ser adulto.
Natália Amanda
Psicanalista - Saúde e Práticas Integrativas.
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